[Pe. Alfredinho] 130 anos de Doutrina Social da Igreja

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

O documento inaugural da Doutrina Social da Igreja (DSI) foi publicado em 1891, pelo então Papa Leão XXIII. Trata-se da Carta Encíclica Rerum Novarum, que versa “sobre a condição dos operários”. Convém não esquecer que a segunda metade do século XIX corresponde ao auge da Revolução Industrial, o que explica a preocupação pelos trabalhadores e trabalhadoras das fábricas incipientes. Eram também tempos de muito movimento: a força do vapor movia trens, navios, carros e outras máquinas. Além disso, dezenas de milhões de emigrantes deixavam o velho continente, em busca das novas terras das América, da Austrália e da Nova Zelândia.

Aos 130 anos do surgimento da DSI, convém citar a abertura do texto para dar-se conta de seu vigor e atualidade: “A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social. Efetivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito” (RR, n. 01).

O conflito assinalado, na época, restringia-se ao âmbito de “patrões e operários”. Hoje as tensões e contradições da economia globalizada são bem mais amplas, diversificadas e complexas. Envolvem praticamente todos os países, centrais, emergentes e periféricos. O acúmulo da riqueza “nas mãos de um pequeno número” continua contrastando com a “indigência da multidão”. Também podemos afirmar que a “sede de inovações” e a “agitação febril” ainda seguem sendo marcas registradas da sociedade atual.

Alguém pode perguntar se, antes disso, a Igreja permanecia indiferente aos problemas sociais. Não é bem assim! Outros pontífices que precederam Leão XIII também se preocuparam, e muito, pela situação concreta da população, em especial os extratos mais pobres e vulneráveis. Essa preocupação, porém, vinha explicitada através de algumas linhas ou parágrafos em meio a escritos cujo tema central versava sobre a teologia, cristologia, mariologia, credo e dogmas, assuntos ligados à fé, esperança, caridade ou santidade, e assim por diante.

A Rerum Novarum tornou-se o primeiro documento inteiramente dedicado à chamada “questão social”. Nessa carta, a centralidade do olhar e da solicitude pastoral convergem sobre a condição real dos trabalhadores e suas famílias. O documento aborda aspectos como o trabalho e suas condições de salubridade, o salário justo para cobrir os custos de um grupo familiar, a relação entre empregador e empregados, o direito de organização dos operários… A data convida a percorrer esse tesouro da DSI, onde muitas pérolas mantêm o valor e o brilho da fonte, onde a água é mais cristalina.

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