[Pe. Alfredinho] Encanto e desencanto

Encanto é o brilho da pedra preciosa. O que lhe confere destaque entre as coisas comuns. Daí que o encanto pode simbolizar, de igual forma, o brilho da própria existência. Tem a ver com uma espécie de segredo, segundo o qual algo reluz na brutalidade aparente dos fatos. Assim, da mesma forma que o sol jamais deixará de existir por trás das nuvens mais sombrias, haverá sempre uma razão oculta a ser descoberta no emaranhado tortuoso e labiríntico dos eventos. Com casca rústica ou lisa, os acontecimentos, sejam eles quais forem, escondem um mistério e um significado doce e denso como o mel. Inconcebível uma história humana que não possua alguma pérola, por mais soterrada que esteja. Um dia ou outro, a luz emerge do ventre da terra, espalhando raios luminosos em todas as direções.

Talvez o coco represente o exemplo mais luminosamente tropical desse tesouro oculto. Sua casca como pedra dura e sua cor indefinida, guarda um líquido prezado como verdadeiro soro medicinal, além de seu “maná” branco e resistente. Um e outro nutrem e reforçam as energias de quem aprendeu a dominar a sabedoria e delicadeza de quebrar sua resistência natural. No itinerário tumultuado do nosso dia-a-dia, ao lado dos elementos benéficos e saudáveis, nunca faltarão pedras, espinhos nem ervas daninhas. A matéria inorgânica, os vegetais e os animais comportam sempre um lado amigo e outro menos familiar. O trajeto que transcorre entre o berço o túmulo é como a travessia de uma floresta onde se mesclam plantas aconchegantes e agressivas, flores ao lado de arbustos venenosos. Ninguém chega ao final desse longo caminho sem certos arranhões. Algumas destas feridas podem cicatrizar, correto, porém outras originam sofrimentos que hão de sangrar para o resto dos dias. Encantos e desencantos costumam ser irmãos gêmeos, caminhando lado a lado, de mãos dadas.

O encanto não é outra coisa senão o tesouro a ser descoberto no campo, lê-se nos evangelhos. Como todo mistério, desperta fascínio e seduz. Escondido no fundo das trevas, é trazido à luz do dia por uma vida marcada pela busca e pelo empenho. Brilha porque veio à tona e foi cuidadosa e devidamente lapidado. E o desencanto? Não é simplesmente o contrário do primeiro. Ou seja, não se limita à ausência do tesouro. Consiste em algo pior que isso: é o tesouro que foi buscado, sim, foi encontrado, sim, foi desenterrado, sim!… Com o passar do tempo, entretanto, acabou por ser totalmente abandonado. Não recebeu os cuidados que o manteriam vívido e brilhante. A pérola não foi submetida ao criterioso processo de lapidação. Criou ferrugem, sofreu corrupção e perdeu o brilho. Com este, perdeu igualmente todo e qualquer significado. Por isso é que o desencantado, além de triste a abatido, sofre de apatia, mágoa e frustração. 

Como alguém que já conheceu de perto o brilho profundo da existência, mas agora por desleixo não consegue manter viva e acesa a chama do entusiasmo. Como alguém que já fez parte ativa das organizações, iniciativas e lutas populares, mas agora está centrado sobre o próprio umbigo, num individualismo que se generaliza cada vez mais. Como alguém que já se entregou a gestos e campanhas solidárias, mas agora amarga um egocentrismo tedioso e infértil. Como alguém que já experimentou a alegria de servir e de oferecer o seu tempo por determinada causa ou por outra pessoa, mas agora sente-se inútil, infecundo e impotente. A luz morreu em seu olhar, o sorriso se apagou em seus lábios, o calor congelou em seu coração. No interior das próprias entranhas e no mais íntimo da alma, o vigor, a força e o estímulo o abandonaram, deixando-o como uma folha seca ao sabor do vento. Feneceram o sabor e o tempero da vida!

Concretamente, lâmpada que carece de fé e esperança não brilha. A exemplo de um autômato, pode desempenhar tarefas mecânicas e corriqueiras. Mas jamais dará a vida por alguma causa ou projeto sociopolítico. Em seu organismo, células e membros se desintegram, como as forças transformadores de uma sociedade se dividem e se fragmentam. Pela lei da inércia e da rotina, certamente continuará ainda produzindo fogo e fumaça, mas não luz, calor e encanto.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 2021.

One thought on “[Pe. Alfredinho] Encanto e desencanto

  • fevereiro 20, 2021 em 3:32 pm
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    Pe Alfredinho; obrigada por mais um texto que alimenta a nossa alma.

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