Retalhos para uma análise de conjuntura

Retalhos para uma análise de conjuntura

   Sinal dos tempos: num Brasil que a duras penas tenta livrar-se da pandemia, quatro fatos e/ou notícias revelam o agravamento clamoroso do desemprego, subemprego e trabalho informal; e revelam também a situação de pobreza, miséria e fome da população mais frágil e vulnerável. Instalam, desse modo, um cenário trágico e caótico de crise socioeconômica. Primeira notícia: “Os bancos lucram R$ 62 bi no 1º semestre [deste ano], e a rentabilidade volta ao nível pré-pandemia”. (Cfr. manchete extraída do site Google, em 19/10/2021).
Segunda notícia: “Em outubro de 2016, no governo de Michel Temer (MDB), a Petrobras passou a calcular o preço dos combustíveis com base no mercado internacional e a repassar variações com maior frequência aos consumidores. Cinco anos depois, os combustíveis no Brasil acumulam alta real (acima da inflação) de mais de 30%, enquanto a empresa reverteu anos de prejuízo em uma sequência de lucros que são distribuídos aos seus acionistas – dentre eles o governo federal” (Cfr. Site UOL, 25/10/2021).
Terceira notícia: “O preço das carnes continua subindo e pesando no bolso dos brasileiros. Em 12 meses a alta acumulada já chega a 35,68%, segundo dados do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor – Amplo 15), divulgados hoje pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apenas neste mês, o preço das carnes já registra alta média de 1,77% no país, de acordo com o IBGE. Em algumas capitais como Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre e Recife o aumento em maio passa de 2% “. (Cfr. Site UOL, 25/10/2021).
Por fim, vamos à quarta notícia: “Em constante crise [social], política e econômica, agravada pela condução desastrosa da pandemia de Covid-19, o Brasil agrava a cada dia o cenário de extrema pobreza, conforme aponta estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Pessan) divulgado em abril. Quase 20 milhões de brasileiros afirmam que passam períodos de 24 horas sem ter o que comer. Cerca de metade da população – 116,8 milhões de pessoas – sofre atualmente de algum tipo de insegurança alimentar. ‘O Brasil continua dividido entre os poucos que comem à vontade e os muitos que só têm vontade de comer’, afirmam pesquisadores da entidade” (Cfr. Site RBA – Rede Brasil Atual, 25/10/2021).
A primeira notícia – sobre o lucro estratosférico dos bancos em meio à pandemia – nos remete ao confronto entre um pequeno agricultor do estado de Oklahoma (Estados Unidos), de um lado, e, de outro, o tratorista que lhe vinha derrubar a casa e tomar a propriedade adquirida pelo banco. O tenso diálogo é referido pelo escritor estadunidense, Premio Nobel de literatura, John Steinbeck, em sua obra As vinhas da ira. “O banco é algo diferente dos homens. Acontece que cada homem num banco detesta o que o banco faz, e mesmo assim o banco faz. O banco é algo maior que os homens, podem acreditar. É o monstro. Foram os homens que o fizeram, mas não podem controlá-lo” – essa é a conclusão do embate.
Os Estados Unidos, em plena crise dos anos de 1930, necessitava expandir a monocultura do algodão, o que fazia com que os camponeses, em massa, tivessem que abandonar suas terras, incorporadas pelo setor financeiro, e migrar para o estado da Califórnia. Ali, em particular no serviço de colheita de frutas, não serão poucas as dificuldades para arrumar trabalho, alimento e moradia. Além disso, o recrudescimento da violência e a desintegração familiar acompanham o relato. O livro e o diálogo de Steinbeck ilustram bem o que se passa no Brasil em que hoje nos movemos, tentando de “bico em bico” sobreviver.
Brasil, terra de contrastes, por sua vez, é uma obra que mostra o descompasso crescente entre os acionistas que detêm o controle da Petrobras e os consumidores de combustível, na análise da segunda notícia. A obra foi publicada com base nas conferências do sociólogo Roger Bastide, de origem francesa, mas que no ano de 1938 migrou para o Brasil, onde, juntamente com outros professores europeus, acabou por ocupar a cátedra de sociologia na recém-criada Universidade de São Paulo (USP) A segunda edição da obra, traduzida por Maria Isaura Pereira de Queiroz, veio à luz em 1969, pela editora Difusão Européia do Livro. A perversa política de preços dos combustíveis, que vem desde o governo Temer e permanece até os dias de hoje, sob o efeito cascata, encarece as mercadorias de forma geral, transportadas em sua maioria pela extensa rede rodoviária. Lucros e carência vão de mãos dadas.
Aqui vários fatores convergem para a crise e a tragédia cotidiana. Indicadores e estudiosos revelam o progressivo aumento da concentração de renda e, simultaneamente da desigualdade social. Agrava-se o fosso entre os que habitam a base da pirâmide socioeconômica e os que, no topo, esbanjam luxo e ostentação. Os resultados são desastrosos e devastadores: pandemia e desgoverno pandemônico, dificuldades para colocar a economia nos trilhos, ameaça de greve dos caminhoneiros, inflação no preço dos produtos básicos, impossibilidade de arcar com os custos do aluguel ou até mesmo da casa própria, despejos e instalação de milhares de famílias pelas ruas, praças e calçadas das cidades.
Poucas vezes no curso da história brasileira os “contrastes” de que nos fala Bastide estiveram tão evidentes e estridentes. Os efeitos perniciosos do coronavírus, agravados por outros vírus (negacionismo, populismo nacionalista de extrema-direita, ódio e mentira como forma de governar, oposição convertida em ameaça, perseguição à arte, à cultura e ao jornalismo sério e responsável…), escancararam e agravaram a vulnerabilidade de milhões de pessoas “excluídas, invisíveis e descartáveis”, para usar os alertas do Papa Francisco.
No desdobramento da terceira notícia, referente ao preço e consumo da carne, convém estar atento a uma pesquisa realizada pelo IBGE, em setembro de 2021. De acordo com os dados levantados, o Brasil alcança atualmente nada menos do que 218,2 milhões de cabeças de gado. “Em 2020, a alta do preço do boi gordo e o crescimento nas exportações de carne contribuíram para que o rebanho bovino crescesse 1,5% ante 2019, chegando a 218.150.298 cabeças de gado. Foi o maior número de bovinos desde 2016”. Apesar de tamanha riqueza na produção pecuária, acompanhada de resultados semelhantes no agronegócio em geral, a carne tente a diminuir e até desaparecer da mesa do povo brasileiro.
Cenas chocantes têm navegado pelas redes sociais: briga por ossos descarnados e descartados, venda de ossos por quilo em alguns açougues; grupo de pessoas disputando os dejetos jogados por um caminhão coletor de lixo. Imagens próprias de cidades devastadas pela guerra. Enquanto o número de cabeças de gado em todo país supera o número de habitantes, estes últimos a bem dizer se obrigam a dividir o lixo não só com os cães, abutres e ratos, mas também entre si. No território do maior produtor e exportador de carne bovina, é praticamente nula a oportunidade dos setores mais pobres da população de poder convidar os vizinhos, parentes e amigos para o tradicional churrasquinho de final de semana.
A quarta e última notícia evidencia o preocupante aumento da extrema pobreza e da insegurança alimentar. Uma vez mais, emerge com força e vergonha o desequilíbrio entre os extremos da riqueza e da pobreza. Num dos países que mais produz grãos e alimentos, fome e subnutrição ameaçam a porta de milhões de famílias. Quantos movimentos sociais, organizações, entidades, igreja e associações passaram a distribuir regular e sistematicamente a “quentinha” (marmita) ou a cesta básica?! Não é esse o papel dessas instituições e nem é essa a atitude de um trabalhador digno. Como dizia alguém, “o pão da caridade pública, por mais necessário e urgente, sempre será o pão regado com as lágrimas da vergonha”. O pão que realmente dignifica o ser humano e a família é o que vem pelo trabalho e o suor do rosto.
Certo, não podemos fechar os olhos à fome. Fome, dor e solidão são três irmãs gêmeas que não podem esperar. A urgência se sobrepõe a todos os escrúpulos. O problema começa quando essa atitude se estende por longo período, tornando-se praticamente estrutural. O que significa que os governos lavam as mãos de suas obrigações, jogando sobre os ombros de terceiros (o terceiro setor) a responsabilidade que, no fundo, corresponde ao poder público. Tomara ninguém jamais tivesse de estender a mão envergonhada para pedir comida, e tomara ninguém jamais a tivesse de estender para oferecer esmola. Humilhante de um lado, tranquilizador do outro! O antídoto dessa relação desigual é a geração de oportunidades homogêneas para todos trabalhadores e trabalhadoras, para que possam caminhar sobre os próprios pés.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Santos-SP, 25 de outubro de 2021

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