[Pe. Alfredinho] Sociedade conflagrada impede o diálogo e a objetividade

Quando reina a crise e o caos, o medo e a violência, a incerteza e a insegurança, o diálogo cede com frequência o lugar ao mutismo ou ao monólogo. Um e outro repetitivos e silenciosos, por vezes, arrogantes e estridentes, quase sempre. Monólogos não possuem o poder de reproduzir-se pois jamais se deixam fecundar pela palavra – viva, nova, outra e criativa. Condenados a uma involução, morrem asfixiados na própria garganta que os produz. Ou, tão logo deixam a boca, dissolvem-se com frequência no ar que ajudam a envenenar.

Da mesma forma que os papagaios, repetem os próprios chavões ou o que ouvem de outrem. A originalidade lhes está definitivamente banida. Cópias de si mesmos, cospem farpas e flechas em todas as direções. Nunca tendo aprendido a ouvir, tampouco são capazes de dizer algo novo. Impossibilitados de se colocarem no lugar de qualquer tipo de interlocutor, reproduzem o que a alma solitária costuma destilar. Daí a propensão aos ataques e à agressividade como forma de autodefesa. A fim de blindarem a nudez, o vazio e a solidão, recorrem ao combate permanente, a uma beligerância que se lhes torna marca registrada. 

Entrincheirados em si mesmos, com escudo e muro de proteção, desconhecem a lição básica do encontro. Este, quando profundo e aberto ao intercâmbio, mostra que a verdade não está comigo nem com você: ela só se revela no diálogo. Ou então, nas palavras do poeta Guimarães Rosa, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Ou no ato de contemplar as estrelas, a beleza delas não está no dedo que aponta nem no olhar que tenta possui-las: brilham para nós no infinito do universo. O mesmo se diga do canto dos pássaros, e do murmúrio das águas, a sinfonia musical não se encontra no coração ou na memória de quem os ouve, e sim na liberdade e transparência das coisas e seres.

Nada disso pode ser familiar ao monólogo. Eco repetitivo dos próprios sons, pouco ou nada de inovador acrescenta. Vive, move-se e luta para defender um reduto minguado e deserto. Tudo o que se lhe opõe é visto como inimigo a ser aniquilado. Como na imagem da caverna, em Platão, trevas, sombras e mentiras o perseguem. O resultado não pode ser outro: onde não incide a luz clara, límpida e cristalina da razão e dos argumentos científicos, a realidade acaba perdendo os contornos objetivos. Prevalecem a difamação, o escárnio, o deboche, a falsidade e a prepotência. Tamanha mesquinhez, grosseria e ignorância, se e quando aliadas ao poder, podem sim levar à necessidade de um “gabinete do ódio”. 

Comprometida encontra-se a objetividade, seja a do bom senso, seja a da pesquisa científica. A mentira ou meia-verdade, então, de tanto repetida e proclamada pelos telhados, pelos meios de comunicação e pelas telinhas das redes virtuais, acaba sendo aceita como realidade objetiva. Um grande exército de seguidores fanáticos faz o papel de caixa de ressonância. A oficina do ódio e da mentira apostam no caos e no absurdo para erguer uma estátua ao mito. Quando a lucidez da razão falha e a luminosidade é fraca, surgem os fantasmas, como o dos “comunistas”. Ausente a objetividade dos dados e fatos, dominam as sombras dos boatos. Em terreno minado por esses seres fantasmagóricos, é preciso cavar trincheiras para vencê-los a qualquer custo. O que nem sempre sabem os artífices dos mitos é que as multidões que erguem estátuas costumam ser as mesmas que, depois, as reduzem a cinzas, ruínas e escombros.

Tanto a falta de diálogo quanto a falta de objetividade são, contemporaneamente, causa e efeito de um tecido social esgarçado e fragmentado, em que as referências sólidas se evaporaram no ar pesado e irrespirável. Daí a polarização conflagrada. Rompe-se ou se rasga o “contrato social, criando grupos hermeticamente cerrados. Em lugar de comunidades abertas, proliferam-se os guetos fechados. Com frequência, a população se divide entre os de “dentro” e os de “fora”, os “bons” e os “maus”, “nós” e “eles”. Uns ferrenhamente contra os outros. Qualquer semelhança com o Brasil de Bolsonaro não é mera coincidência.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo, 3 de junho de 2021.

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