BRASIL VISTO DE BAIXO
Em contraponto ao programa Mundo visto de cima (ou Brasil visto de cima), convém ter presente o Brasil visto de baixo. Visto, por exemplo, das ruas e praças deterioradas, das periferias e favelas, dos morros e mangues, dos povos originários ou populações quilombolas, dos cortiços e porões da sociedade, dos lares fragmentados e invioláveis; enfim, dos grotões mais obscuros, longínquos e esquecidos do campo e da cidade.
Brasil visto com o olhar dos pobres e excluídos, das vítimas e dos mais vulneráveis, da imensa multidão dos migrantes, refugiados, apátridas e “descartáveis”; de muitas mulheres forçadas a esconder seus hematomas dos próprios familiares, para não piorar a situação, ou assassinadas por seus ex-companheiros. Evidente que não se trata de uma população unicamente vítima, mas cujo protagonismo torna-se tíbio e tímido, inibido pela pobreza, a miséria e a fome; pelo descaso, a violência e a indiferença; quando não pelo desatino e a saúde mental abalada. Olhar oblíquo e enviesado de quem conhece de muito perto a dor, o tormento e o abandono.
Retrato de um Brasil que, ciente ou não, clama por mudanças, por justiça e por algum momento de paz. Como pode esta última proliferar em meio às famílias sem terra, sem teto e sem trabalho? Como poderá vingar entre tantos errantes das estradas, sem raiz, sem rumo e sem pátria? Por isso o gemido abafado, silenciado ou silencioso, o qual, se e quando levado à rua e à praça, converte-se em Grito dos excluídos e excluídas.
Alfredo J. Gonçalves, Assessor Nacional do SPM, SP, 07/05/2026

