MUNDO COM O DEDO NO GATILHO
O mundo está com o dedo no gatilho. Alto e bom som, tem-se repetido que estaria em andamento a Terceira Guerra Mundial “aos pedaços”. De um lado, o presidente dos Estados Unidos deu início a um tiroteio em que a fúria do vento espalha fogo e fumaça pelos quatro cantos do planeta. De outro, vários países, com o pretexto da autodefesa, retomam uma nova corrida armamentista. Os céus do contexto atual ganham uma tonalidade sombria e teoricamente bélica.
Ocorre que, ao ser eleito para comandar a maior potência global, Trump sabe que os fatos, os boatos e os dados contestam essa primazia. Outorgou-se ele, então, o papel de grande Xerife de todo mundo para reverter o declínio a qualquer custo. Tem de gritar que segue sendo “o mais poderoso do mundo”, o que por si só atesta a própria fragilidade. A ganância e a ambição pelas riquezas naturais, ao lado da obsessão pelo poder e o império levou-o a semear ameaças verbais e ataques reais tanto à direita quanto à esquerda. Sequer hesita em debochar das crises e mudanças climáticas, bem como do “aquecimento global”.
A verdade é que, utilizando os canais, instrumentos e mecanismos da democracia, o novo Tio Sam se elegeu e se converteu em ditador. Autoritarismo e supremacismo deram-se as mãos. Desencadeia-se, a partir daí, uma campanha para garantir o “espaço vital” para a pretensa “raça pura”, isto é, os brancos norte americanos, à maneira de Hitler e do nazifascismo na Alemanha. Árabes, negros, asiáticos, hispânicos e imigrantes em geral se tornam perigosos, indesejáveis e descaráveis. Devem ser banidos. Começa a todo vapor, e com violência extrema, a deportação dos estrangeiros “ilegais”.
Ironia das ironias! Aquele que reivindica o prêmio Nobel da paz, chegando a considerar-se o arquiteto do pacifismo internacional, vem escancarado as portas e janelas do inferno às brigas, tensões, conflitos e guerras. Guerras de caráter político, econômico, social e cultural. Pior ainda, é o mesmo que, como “arauto da democracia”, se outorga o direito e o dever de levar essa prática a todos os demais países. Resultado: de um só golpe, tenta destruir as sociedades autenticamente democráticas, enquanto impede a formação de novas democracias – livres soberanas e autônomas.
Com o dedo no gatilho, o cowboy, o leão da floresta ruge, semeia tempestade e colhe rancor e turbulência. Arreganha os dentes, afia as garras e empunha as armas. Sob a nua e fria curiosidade dos microfones, dos holofotes e das câmaras, exibe retórica e espetáculo. Faz do negacionismo e da mentira uma bandeira contra a justiça e a paz. Os artífices do “bom combate”, ao contrário, com silêncio e paciência, avançam palmo a palmo, passo a passo, rumo a um horizonte cujos raios dourados já iluminam a nova aurora. Aurora não do lucro, da exploração da natureza e do abuso do trabalho humano, e sim do cuidado, da convivência e do cultivo da “vida em primeiro lugar”, de todas as formas de vida – ou seja, da biodiversidade que tudo envolve e tudo entrelaça: coisas, plantas, animais, pessoas e relações.
Alfredo J. Gonçalves, cs, Assessor do SPM, RS, 17/01/2026

