MOTOR IMÓVEL E MÃO INVISÍVEL

O grande filósofo grego Aristóteles referia-se à divindade como “motor imóvel”, o qual, sem se mover, move tudo: coisas, plantas, animais, astros e pessoas. O filósofo e economista escocês Adam Smith, por sua vez, garantia que, na livre e aparente confusão do movimento das mercadorias, uma espécie de “mão invisível” regula o mercado, de acordo com o equilíbrio permanente entre a oferta e a procura.

A razão, a ciência aplicada e o pensamento crítico, próprios do mundo moderno e contemporâneo, desenvolvendo novas ideias filosóficas, teológicas e científicas, desmentem ambas as proposições. Do ponto de vista religioso, a partir de estudos críticos dos livros e relatos sagrados, verifica-se que o antigo Povo de Israel, em sua libertação do Egito, narra uma experiência ao mesmo tempo espiritual e teológica de um Deus que “vê, ouve e conhece” o sofrimento dos hebreus na terra da escravidão, e que por isso mesmo “desce e envia” Moisés para caminhar com o povo peregrino pelas estradas do êxodo, do deserto, do exílio e da diáspora, na travessia rumo à Terra Prometida. Em lugar de imobilidade, Deus passa a ser sinônimo de contínuo movimento.

Do ponto de vista político e econômico, na sequência de Adam Smith outros cientistas, filósofos e economistas haverão de desnudar as máscaras, artimanhas e mecanismos da economia capitalista. Demonstrarão, por exemplo, a ilusão e falsidade da misteriosa “mão invisível”. Esta, com efeito, nem é invisível e tampouco neutra, como pareciam supor os economistas, em particular conservadores. Pelo contrário, aquela mão se materializa e se corporifica no Estado. E este, por seu turno, representa as ideias e as classes dominantes, tais como empresários, grandes proprietários, produtores e poderosos em geral. O mesmo Estado que, se e quando necessário, não hesitará em converter a mão invisível num “punho de ferro” brutal, pronto a reprimir e desbaratar as revoltas e mobilizações das classes trabalhadoras.

Nos tempos de “vacas gordas”, com taxas de lucro em alta na economia capitalista, o Estado tende a fechar os olhos, deixando solta a suposta magia da mão invisível. Permite, com isso, que raposas e galinhas coexistam e disputem o interior do mesmo espaço. Ou então, que tubarões e sardinhas habitem e também disputem o mesmo aquário. A palavra de ordem é “salve-se quem puder”! Vale aqui a lei do mais forte, a liberdade de iniciativa. Configura-se, dessa forma, o liberalismo selvagem, o qual, diferente de uma verdadeira liberdade, nada tem a ver com a igualdade de oportunidades. Neste campo minado e viciado, os fortes ficam mais fortes às custas do enfraquecimento dos mais fracos. Aplica-se à sociedade a seleção natural de Darwin.

Nos tempos de “vacas magras”, com as taxas de lucro em baixa, tanto entre produtores quanto entre investidores capitalistas, ocorre o contrário. O Estado desperta e se levanta para “salvar” a empresa, o banco, o agronegócio, o sistema financeiro, o mercado… E também desta vez a mão invisível se transforma em juízes, capangas, policiais ou militares para garantir o bom funcionamento da “ordem e progresso”, ícone de nossa bandeira nacional. O punho de ferro bate duro, com fúria e fogo.

Que é essa “ordem” que está em jogo? Qual o bom funcionamento do “progresso”? A ordem da exploração frenética e indiscriminada dos bens da natureza, por uma parte. O bom funcionamento da mão-de-obra assalariada, colhendo lágrimas, suor e sangue, por outra. Nada de conflitos, distúrbios ou turbulências! Deve prevalecer a lei maior do mercado e do Estado: defesa e manutenção do status quo. Concentração de renda e exclusão social andam de braços dados. Cresce e se aprofunda o abismo das desigualdades sociais. Qualquer tipo de oposição a essa lei férrea, primeiramente será banida e desacreditada pela mídia em geral; depois, se isso não bastar passa demover os opositores, será batida implacavelmente pela força nua, bruta e cruel.

Dupla conclusão: desde logo, Deus se põe em movimento, irrompe na travessia humana, grava suas digitais na história de pessoas e sociedades, povos e nações, culturas e valores – na tentativa de construir conosco novas alternativas à ordem vigente. Em seguida, com a luz e a sabedoria da Palavra de Deus, somos todos e todas convidados/as a buscar a verdade e o bem, a justiça e a paz, o cuidado e a preservação de tudo que pulsa, respira, caminha, dança, canta e vive sobre a face da Terra.

Alfredo J. Gonçalves, cs, Rio de Janeiro, 02/01/2026.

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