Crise econômica, falta de liberdade e pandemia explicam protestos em Cuba

Grandes manifestações no país são incomuns no país e lembram protestos do início dos anos 90

Polícia de choque percorre as ruas após uma manifestação contra o governo do presidente cubano Miguel Diaz-Canel no município de Arroyo Naranjo, na Grande Havana, em 12 de julhoFoto: Yamil Lage/AFP/Getty Images

Milhares de pessoas saíram às ruas de Cuba no domingo (11) para se manifestar devido à situação econômica e à falta de liberdade, uma situação incomum para o país governado pelo Partido Comunista de Cuba, o único legal, desde a Revolução de 1959 e que faz lembrar da onda de protestos no início dos anos 1990.

As manifestações ocorreram em Havana e San Antonio de los Baños, segundo a CNN, e em outras partes de Cuba, segundo vídeos veiculados em redes sociais, que pareciam mostrar outros protestos em várias de cidades e vilas da ilha.

Um morador que não quis ser identificado, por sua vez, disse à CNN que os moradores de San Antonio de los Baños vinham passando por cortes de energia durante a semana e que isso havia “gerado” descontentamento na cidade.

Esses protestos são muito inusitados, pois o governo não permite qualquer tipo de manifestação e, caso ocorram, são imediatamente contidos. Desta forma, inúmeras prisões foram feitas e a polícia disparou gás lacrimogêneo para desmantelar algumas concentrações.

O que está acontecendo então em Cuba?

Condições econômicas preocupantes

Nesta ocasião, as pessoas reclamaram principalmente de cortes de energia, escassez de alimentos e o manejo do governo na pandemia de Covid-19, prejudicando uma economia já fortemente afetada por sanções durante o governo Trump e que depende do turismo, que praticamente desapareceu durante os bloqueios de 2020 para conter o vírus.

A queda do turismo, principal fonte de divisas do país, também provocou queda nas importações de bens essenciais, gerando escassez.

Consequentemente, o número de migrantes cubanos que tentam chegar aos Estados Unidos é o maior desde 2017.

De acordo com a Guarda Costeira dos Estados Unidos, em todo o ano de 2021 cerca de 500 cubanos foram interceptados no mar tentando chegar à costa da Flórida. Em 2019, eram 313 e, em 2018, apenas 259.

Os números são ainda menores do que os registrados durante o “Período Especial” no início de 1990 em Cuba, quando milhares de cubanos, em meio a uma onda de protestos, pularam ao mar, escapando das severas condições econômicas da ilha após a queda do regime da União Soviética, em 1991, principal aliado e parceiro comercial de Cuba.

Mesmo assim, eles mostram que cada vez mais cubanos estão dispostos a cruzar os perigosos 144 quilômetros de mar que separam a ilha da Flórida.

O papel da pandemia de Covid-19

Segundo a Universidade Johns Hopkins, Cuba relatou 238.491 casos e 1.537 mortes por Covid-19. Mas os números preocupantes são os mais recentes: 6.923 infecções e 47 mortes foram registradas no domingo, um recorde para o país desde o início da pandemia. Também os casos acumulados na última semana são recorde.

“Nas últimas duas ou três semanas o aumento de casos foi mais intenso. As autoridades confirmaram a variante delta no interior de Cuba”, disse à CNN José Geraldo Moya Medina, representante da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde em Cuba no início de julho.

Moya Medina disse que a situação é pior nas cidades do interior de Cuba e não tanto em Havana, onde começou a ser aplicada a vacina de desenvolvimento local Abdala, que teria uma eficácia de 92%, segundo autoridades cubanas. Uma segunda vacina cubana, a Soberana 02, teria eficácia de 62%.

Reivindicações por mais liberdade

Muitos manifestantes gritaram por “liberdade” e pediram a renúncia de Díaz-Canel. A polícia prendeu vários manifestantes e usou gás lacrimogêneo para interromper algumas manifestações. Os confrontos violentos com os manifestantes também foram relatados, jogando pedras e derrubando um carro da polícia.

Desde a Revolução Cubana de 1959, que derrubou o ditador Fulgencio Batista, Cuba é governada pelo Partido Comunista de Cuba e sob um regime comunista liderado por Fidel Castro, que mais tarde entregou o poder em 2006 a seu irmão Raúl Castro.

Alinhado com a União Soviética em tempos de Guerra Fria, elo pelo qual o país recebia subsídios no valor de US$ 4.000 a US$ 6.000 milhões anuais, Cuba viveu dificuldades econômicas nas últimas décadas, em meio a demandas crescentes por reforma e abertura de sua população.

A dura resposta do governo

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, disse na segunda-feira (12) que as sanções comerciais dos EUA criaram miséria econômica na ilha e foram responsáveis ??pelos protestos.

As palavras de Díaz-Canel, que sucedeu Raúl Castro como presidente em 2018, pareciam se referir ao governo de Donald Trump, que promulgou algumas das medidas econômicas mais duras contra Cuba em décadas, incluindo sanções econômicas e restrições a viagens. Até agora, o governo Biden ainda não os suspendeu.

Ao final do mesmo discurso, garantiu que “a ordem de lutar foi dada, (…) os revolucionários precisam estar nas ruas”.

Enquanto o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, criticou o assessor de segurança da Casa Branca, Jake Sullivan, na segunda-feira, por fazer uma declaração em apoio aos incomuns protestos cubanos.

“O Assessor de Segurança Nacional da Casa Branca carece de autoridade política e moral para falar de Cuba. Seu governo destinou centenas de milhões de dólares para a subversão em nosso país e impõe um bloqueio genocida, que é o principal responsável pelas deficiências econômicas”, afirmou. Rodríguez em um tuíte.

Biden pede a Díaz-Canel que “ouça seu povo”

No tuíte que provocou a reação de Rodríguez, Sullivan expressou seu apoio ao povo cubano: “Os Estados Unidos apóiam a liberdade de expressão e reunião em Cuba e condenariam veementemente qualquer violência ou ataque contra manifestantes pacíficos que exerçam seus direitos universais”.

Por sua vez, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na segunda-feira deu seu apoio ao povo cubano em meio aos protestos e pediu ao regime de Díaz-Canel que “ouça seu povo e atenda suas necessidades”.

“Apoiamos o povo cubano e seu clamor por liberdade e alívio do trágico controle da pandemia e das décadas de repressão e sofrimento econômico a que tem sido submetido pelo regime autoritário de Cuba”, disse Biden em um comunicado.

*Com informações de Patrick Oppmann e Tatiana Arias.

(Texto traduzido. Leia aqui o original em inglês.)

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/amp/internacional/2021/07/14/crise-economica-falta-de-liberdade-e-pandemia-explicam-protestos-em-cuba

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