Artigo de Itamar Vieira Junior

Carregaremos culpa por toda a vida pelos 400 mil mortos na pandemia

 

Itamar Vieira Junior

Geógrafo e escritor, autor de “Torto Arado”

 

Romance de Philip Roth mostra que o fardo de grandes tragédias nunca deixa de nos acompanhar

 

Publicado por Folha de São Paulo, edição impressa, 30.abr.2021 às 8h00

 

Em 1916, o nordeste dos Estados Unidos enfrentou uma epidemia de poliomielite com mais de 27 mil casos registrados e 6 mil mortos. As vítimas, em sua maioria, eram crianças e adolescentes, embora a doença também acometesse muitos adultos.

Franklin Roosevelt, um dos mais célebres presidentes norte-americanos, tinha 39 anos quando contraiu a pólio e usou até o fim da vida “pesados suportes de aço e couro que iam do tornozelo aos quadris, a fim de se manter de pé”.

A cada verão surgiam novos surtos, e até a descoberta da vacina em 1953 e a posterior erradicação de algumas variantes, a doença foi uma importante preocupação em todo o mundo. Naqueles anos, o destino dos infectados era a morte ou deficiência por paralisia, muitas vezes presos aos temíveis pulmões de aço em hospitais para conseguir sobreviver.

Nas primeiras décadas do século 20, quando não se tinha mais informações sobre sintomas e sobre sua causa, imaginava-se que qualquer coisa poderia ser o desencadeador da infecção pelo poliovírus: insolação, exercício físico, moscas, mosquitos, miasmas, suor etc. É o que nos conta Philip Roth em seu 

A história se inicia em 1944 num pátio escolar, a partir do embate do professor de educação física Bucky Cantor e um grupo de jovens de ascendência italiana da periferia de Newark que alega estar ali para espalhar a pólio, cuspindo na calçada. Cantor, com seu senso de responsabilidade em proteger as crianças sob os seus cuidados, enfrenta-os até que deixem o local.

Dias depois, dois dos seus alunos não aparecem no pátio e ele recebe a notícia de que foram internados com o diagnóstico de pólio. A partir daí, Cantor vive um crescente sentimento de culpa e inconformidade.

Nêmesis é a deusa da vingança e da justiça na mitologia grega. Por extensão, tem também como significado a pessoa que inflige retaliação a outrem. Cantor vê dia a dia seus alunos serem hospitalizados numa cidade onde os sons das sirenes das ambulâncias ocupam os dias com frequência durante aquele verão.

A Europa e o Pacífico convulsionavam com a Segunda Guerra. Ele não pôde servir no conflito por conta de uma grave miopia, mal sabendo que viveria sua guerra particular contra um inimigo invisível. Vivendo na comunidade judaica de Weequahic, passa a ver toda aquela provação como seu embate particular com Deus, por considerar cruel demais que as vidas de crianças inocentes sejam ceifadas ou limitadas por paralisias.

Sem poder ajudar as famílias acometidas e convidado por sua namorada para trabalhar como instrutor de nado numa colônia de férias onde ela já trabalhava, Cantor deixa Newark, mas a culpa continua a acompanhá-lo.

O desenrolar da história mostra que, por mais que se viva, ao sermos confrontados por uma tragédia de grandes proporções, viveremos para sempre à sombra daquele evento. Ao ultrapassar a marca de 400 mil mortos na atual pandemia, muitos de nós têm a certeza de que algo mais responsável poderia ter sido feito para evitar que a pandemia do coronavírus nos atingisse nessas proporções inimagináveis.

Em nossa era ultratecnológica e globalizada, de internacionalização de dinheiro, crises, exploração do trabalho e enfraquecimento das democracias movidas pelos interesses das grandes corporações, os males sanitários também se espalham em velocidades impressionantes. Se as pandemias do passado levaram algum tempo para se disseminar, hoje, quando é possível viajar da América à Ásia em 24 horas, se espalham na mesma velocidade do deslocamento humano. Foi assim que vimos em questão de semanas um surto se tornar num desastre sanitário.

Cantor manifesta o medo de ser o portador de um mal que está fazendo cair doentes os que estão à sua volta. A cada aluno que Cantor perde para a pólio, ele se culpa ainda mais por não ter conseguido evitar a propagação, como se dependesse apenas de seus atos.

Na falta de uma explicação detalhada sobre o que estava ocorrendo, e fiel às tradições de seu povo, culpa Deus pelo infortúnio do seu tempo. Quantos de nós ao longo deste tempo tememos não apenas adoecer, mas também disseminar o vírus para outras pessoas, principalmente as que estão ao nosso lado?

Há muito tempo parece estar cristalizada entre parte da população brasileira, segundo pesquisas de opinião, que o país enfrentou da pior maneira a pandemia. A falta de coordenação nacional para enfrentamento da tragédia sanitária e o desdém do presidente da República e do seu séquito, ao longo de um ano, mostram não apenas omissões, mas uma conduta criminosa: lançar a população a um experimento em larga escala, que nos lembra os realizados por Josef Mengele nos campos de concentração nazistas, para conseguir a imunidade coletiva sem vacina e à custa de milhares de vida.

O negacionismo não era apenas a recusa em reconhecer a gravidade da situação, era parte de um projeto de poder que culminou numa catástrofe que tem todos os requisitos para ser classificada como um crime contra a humanidade. É o que a CPI do Senado sobre o tema poderá nos revelar.

A culpa de Cantor parece estar destinada também a ser a culpa que carregaremos pelos restos de nossas vidas, neste momento em que milhares de famílias permanecem enlutadas, e outras certamente se enlutarão.

Carregaremos um fardo coletivo pelo desastre por muitos motivos: por fazer da eleição uma aventura; por levarmos ao poder um conhecido e desprezível personagem político que nunca mostrou compromisso com os valores humanos de nosso tempo; por não termos feito nada, absolutamente nada para barrar o morticínio em curso.

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