Mulheres e migrações

Mesmo em meio à maior pandemia do século XXI, as migrações continuam empurrando milhares de pessoas para outros países em busca de sobrevivência. Boa parte destes migrantes são mulheres e crianças. Em alguns contextos migratórios, elas representam mais de 60% dos deslocamentos. A maioria sem um projeto migratório, sem planejamento, sem reservas econômicas. Simplesmente partem, sem pensar muito no que vão encontrar pela frente. Movidas pela esperança de dias melhores para elas e suas famílias, elas se lançam no caminho e por onde passam, revelam-se a própria esperança num mundo cada vez mais interrompido pelos muros e pelas cercas que impedem os migrantes de avançar no caminho. 

E elas vão chegando, de todas as partes do mundo, carregadas de esperança, portadoras da esperança que anima a quem encontram pelos caminhos da migração, como na letra desta canção da década de 1980 que continua ainda tão verdadeira e atual:

Elas estão chegando
Elas estão chegando pelas portas e janelas,
Avenidas e vielas. Elas estão chegando.

Chegando como um vento forte, chegando com vida e norte,
chegando para questionar, chegando para mudar.

Chegando sempre com doçura, chegando para juntar forças,
chegando para encantar, chegando para alegrar.

Chegando para sarar as juntas, chegando para juntar as forças,
chegando para construir, chegando para prosseguir.

Chegando para questionar, chegando para mudar,
chegando para encantar, chegando para alegrar

(Valdomiro de Oliveira (Pe. Mirim); Marcos Gianelli e Francisco Esvael – 26/06/1984).

As mulheres inauguram as migrações por sobrevivência porque tem nas mãos a responsabilidade do cuidado da vida, desde o ventre materno. São as principais nas cifras das remessas. Enviam de volta para seus países ou lugares de origem as economias que guardam mesmo às custas da sua fome e miséria no destino migratório. Mas, além das cifras econômicas, elas fazem circular a esperança de dias melhores, a solidariedade entre migrantes e locais, as fórmulas para aliviar as dores do corpo e da alma. Trocam trabalho por alimentos, roupas, calçados e um pouco de atenção. 

Nas trajetórias migratórias as mulheres chegam trazendo saberes ancestrais para tornar os corpos mais fortes e não permitem que a pandemia varra a força e a resistência cultivadas por elas nas cirandas, nas rodas de conversa, nas praças e nas ruas que vão ficando repletas de sua presença. Ao seu redor, os pequenos saltitam e brincam sem entender exatamente o que está acontecendo. Sabem apenas que podem contar com o aconchego e proteção dos braços que se fazem forte, mesmo em meio a lágrimas, fome e todo tipo de sofrimento, companheiros inseparáveis das mulheres migrantes.   

Por SPM – Serviço Nacional dos Migrantes. 

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