[Pe. Alfredinho] Quatro vírus levam o Brasil à UTI

O primeiro é o Covid-19. O flagelo se abateu sobre toda a humanidade, mas em particular sobre o Brasil. No mundo todo, os casos de infecção alcançam a cifra de 166 milhões, enquanto os mortos beiram a conta macabra de 3,5 milhões. Por aqui, foram infectadas mais de 16 milhões de pessoas, levando ao colapso o sistema de saúde privado e público. Os leitos nos hospitais, de forma particular na UTI, e os cilindros de oxigênio foram desesperadamente disputados pelas famílias das vítimas. Quanto aos falecidos, sua contagem se aproxima, com uma rapidez sem precedentes, à casa dos 500 mil. Contam-se às centenas de milhares o número de famílias enlutadas precocemente pela pandemia. Difícil achar alguém que não fale de um familiar, um parente ou um conhecido perdido para esse inimigo tão invisível quanto letal. Os profissionais da saúde vêm tropeçam a todo momento com a “síndrome respiratória aguda grave”, sintoma que se tornou o fantasma terminal da enfermidade.

O segundo é o negacionismo. Personifica-o ninguém menos que chefe da nação. O deboche, a indiferença e o escárnio quanto às medidas sanitárias substituíram a eficácia no seu combate. A fúria agressiva do novo coronavírus foi temerariamente menosprezada. As políticas públicas que poderiam compensar os danos causados pela tragédia foram sistematicamente desmontadas. Pelos campos, os povos indígenas, as populações quilombolas, os trabalhadores sem-terra e as comunidades ribeirinhas viram-se abandonadas. Já nas cidades, numerosas microempresas, vendedores ambulantes e as pequenas iniciativas populares despencaram na falência, tendo sido praticamente ignoradas relegadas às ruas. O “auxílio emergencial” foi suspenso e/ou desidratado no momento mais agudo da peste. Pior ainda, devido à negligência, incompetência e despreparo das autoridades, com destaque para os Ministérios da Saúde e da Economia, a imunização segue a passos de tartaruga. A CPI criada para avaliar a atuação do governo durante a pandemia, vem mostrando à exaustão que faltou planejamento para a aquisição das vacinas.

O terceiro é a fome. As estatísticas oficiais dão conta de que o desemprego atingiu mais de 14 milhões da População Economicamente Ativa (PEA), o que leva a supor que os dados podem estar subestimados. Em vez de emprego, o mercado oferece serviços instáveis, temporários e efêmeros. Ampliam-se tanto o subemprego crônico quanto a procura desesperada pelos “bicos”, cenário que comporta uma insegurança estrutural. No meio de tudo isso, verificou-se o aumento do preço dos produtos de primeira necessidade. Pobreza, miséria e fome batem à porta. O povo faminto vem buscando e engrossando as filas crescentes, seja para as “quentinhas” (marmitas), seja para as cestas básicas. Nem precisa lembrar que o fosso entre o pico e a base da pirâmide socioeconômica se aprofundou nas últimas décadas, agravando as assimetrias e desigualdades sociais. Também seria inútil acrescentar que o Brasil segue sendo um doa países mais desiguais do planeta. A fome trouxe à superfície da sociedade números espantosos e ignorados, os quais, por sua vez, representam o rosto desfigurado da imensa “multidão dos sem”. Drama invisível que ganhou uma visibilidade simultaneamente penosa e caótica.

O quarto é a violência. Uma das principais características da pandemia é que ela escancarou, e ao mesmo tempo agravou, diversas mazelas de uma sociedade marcada por um patriarcalismo histórico e estrutural. Além de trazer à tona os rostos ocultos dos “pobres, dos excluídos e dos supérfluos”, para usar as palavras do Papa Francisco, ela escancarou e agravou igualmente a violência domiciliar. Com o quadro de isolamento e quarentena, boa parte dela recai sobre os ombros das mulheres e das crianças. O confinamento fez com que a violência dos botecos e das ruas migrasse para o interior das famílias. A verdade é que crise e caos, medo e insegurança costumam criar terreno fértil para a agressividade. E esta, paradoxalmente, tende a abater-se sobre as pessoas que nos são mais próximas, ou até mesmo sobrea aquelas que amamos e com quem dividimos o mesmo o teto e o pão. Notícias sobre feminicídios e assassinatos de crianças, infelizmente, têm sido frequentes nos últimos meses.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo, 22 de maio de 2021.

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