[Pe. Alfredinho] Tempo Comum: frequentar a “escola de Jesus”

Do ponto de vista do calendário litúrgico, enquanto o Advento e o Natal, a Quaresma e a Páscoa celebram eventos marcantes na trajetória de Jesus, o “tempo comum” constitui uma grande oportunidade para frequentar o que se poderia chamar de “escola de Jesus”. Basta uma rápida olhada ao início da vida pública do Mestre, especialmente nos evangelhos sinóticos, para verificar três aspectos fundamentais de seu ensinamento: o profeta itinerante de Nazaré afirma, em primeiro lugar, que “o tempo se cumpriu”, depois, que “o Reino de Deus está próximo”, por fim, que as as pessoas “se convertam e acreditem na Boa Notícia”. (Mt, 4,17; Mc 1, 14-15; Lc 4, 16-19). No fundo, uma constatação, uma novidade e um apelo.

A constatação: o tempo se cumpriu. Durante séculos, em particular depois da desilusão quando à experiência do reinado e suas dinastias, o Povo de Israel viveu na expectativa do Messias. Este torna-se uma figura indefinida e ambígua na tradição judaica. Enquanto para alguns, trata-se de um líder político que deveria libertar Israel dos impérios vizinhos, e que se sucederam na sua dominação, para outros, a espera se desloca para a atmosfera místico-religiosa. Os limites entre ambas, porém, seguem sendo porosos e fluídos. O certo é que, de acordo com os diferenciados relatos evangélicos, a chegada de Jesus representa, contemporaneamente, o cumprimento da promessa que vem da antiga aliança e o fim da ansiosa espera. Para os discípulos ou alunos da escola de Jesus, se o tempo se cumpriu, é hora de agir. O desafio e a diversidades está em saber como cada um entende o chamado à ação!

A novidade: o Reino de Deus está próximo. Na verdade, em outra ocasião, Jesus afirmará que o Reino “já está no meio de vós” (Lc 17, 20-21). Numa perspectiva teológica, portanto, a própria presença do Filho atesta que o Reino do Pai deitou raízes vivas no tecido da história. Através do mistério da encarnação, “o verbo se fez carne e armou sua tenda em meio aos homens” (Jo 1, 14). As palavras, gestos, parábolas e milagres do Mestre são uma prova de que Deus vem se relevando, abrindo horizontes novos na trajetória humana sobre a face da terra. Em termos mais diretos, a escola de Jesus, no decorrer de seu ministério público, não apenas se faz interprete dos “sinais dos tempos” (Lc 12, 54-59), mas reclama dos discípulos/alunos a capacidade profética. Profética não no sentido de adivinhar os acontecimentos que estão por vir, como por vezes entende o senso comum, mas na intuição mística que leva a ler o presente com os olhos da fé. Ou seja, tão profunda e significativamente que é capaz de vislumbrar a direção dos ventos que, ao longo dos séculos, ajudam a forjar os acontecimentos históricos.

O apelo: convertam-se a acreditem na Boa Notícia. Transportando para os tempos modernos, o conceito de conversão torna-se familiar a partir do ato de dirigir um automóvel. Para quem se encontra ao volante, converter é virar à direita, à esquerda, voltar atrás!… Numa palavra, mudar o rumo da máquina. De fato, se o tempo da espera chegou ao fim e se o Reino está próximo, o que esperar de quem frequenta a escola de Jesus? A resposta tem a ver não tanto com mudanças aparentes e superficiais, e sim com transformações profundas e radicais, seja em nossos projetos e opções, seja em nossos caminhos e passos. Converter-se em vista da justiça social, econômica, política, ecológica, enfim, o retorno ao bem viver. Semelhante convite à conversão, de resto, já estava presente, e com veemente ênfase, no discurso do precursor João Batista, o profeta que faz a ponte entre a velha e a nova aliança: último representante de uma, primeiro da outra. Adverte a voz que clama no silêncio do deserto: “O machado já está posto na raiz; e toda árvore que não der fruto, será cortada e jogada ao fogo” (Lc 3, 9).

Conclui-se que converter-se e produzir frutos representam duas faces da mesma moeda. Frutos que tenham como meta desenvolver a fundo o potencial positivo das relações humanas, e destas com a natureza, com Deus e consigo mesmo. Essa harmonia relacional, por sua vez, é o único caminho que conduz à convivência fraterna e à felicidade!

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2021.

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