Migração e ‘Cidade de chegada’

O autor é Doug Saunders, jornalista britânico e canadense. O estudo leva como título ‘Cidade de chegada’ – a migração final e o futuro do mundo (DVS Editora, 2010). Trata-se de um conceito que procura explicar a relevância das favelas ou zonas suburbanas para a entrada e inserção dos migrantes no núcleo urbano propriamente dito. ‘Cidade de chegada’ consiste em uma espécie de lugar híbrido, onde zona rural e zona urbana se encontram e se fundem. Um espaço intermediário, o qual ainda mantém relações diretas com os povoados de origem, no campo, ao mesmo tempo que, na cidade, vai abrindo e ampliando uma rede de laços com a metrópole. Importante aqui é o leque de conhecimentos que permite descortinar as portas de entrada, seja no que se refere ao mercado de trabalho ou aos demais direitos básicos.

De acordo com o autor, são quatro as principais funções da ‘cidade de chegada’. A primeira é “a criação e a manutenção de uma rede: uma teia de relações humanas que liga o povoado à cidade de chegada, e esta [última] à cidade estabelecida”. Em contato com os dois polos, instala-se um serviço de comunicação permanente entre um e outro. Na medida em que é bem-sucedida, essa intermediação acaba por desenvolver o que o jornalista chama de “máquina de cidadãos”. E inversamente, quando mal sucedida, pode degenerar em terreno fértil para o consumo e tráfico de drogas, a violência e o recrutamento de jovens para o crime organizado.

As ‘cidades de chegada’, em segundo lugar, “funcionam como um mecanismo de entrada”, no sentido de facilitar a busca por trabalho e moradia, facilitando igualmente a vinda da próxima geração de migrantes, “num processo conhecido como migração em cadeia”. Destacam-se aqui as remessas de dinheiro aos lugares de origem, a garantia de empregos e/ou serviços, mesmo que instáveis e temporários e a tentativa de criar esquemas que possam contornar as restrições à migração. A rede de parentesco e de conhecimento permite que o migrante deixe sua terra natal não de forma cega e sem horizonte, mas sabendo exatamente com que pode contar para abrir caminho no emaranhado complexo da cidade.

A terceira função dessas “cidades de chegada’ consiste justamente em atuar como “plataformas de estabelecimento urbano”. Com os parcos recursos que traz e a ajuda dos parentes e amigos, o migrante recém-chegado poderá, entre outras coisas, chegar a adquirir uma casa própria, iniciar um pequeno negócio autônomo, além de “estudar os filhos” na cidade estabelecida. O conjunto da família é capaz de sacrificar uma ou duas gerações, contanto que os descendentes possam se formar. “A vida é uma aposta sobre o futuro das crianças”, com a qual todos se empenham. Daí a insistência em se manter na “cidade de chegada’, por piores que sejam as condições, uma vez que a maior herança que podem legar continua sendo o estudo. “Aqui não está bom, é verdade, mas só volto para a zona rural num caixão”.

Em quarto e último lugar, conforme o autor, “uma ‘cidade de chegada’ em bom funcionamento oferece aos habitantes um caminho de mobilidade social, permitindo sua entrada (…) nas classes trabalhadoras mais abastadas que lhes garantem empregos permanentes”. Trata-se de um passo nada desprezível, o que pode levar a pavimentar o “caminho para a cidade central”. Neste caso, a ‘cidade de chegada’ completa seu círculo bem-sucedido: permitir uma migração gota-a-gota do campo para a cidade, oportunizar aos filhos e/ou netos meios e condições de formação média e superior, constituir-se enquanto plataforma ou trampolim para o núcleo urbano.

A conclusão de Doug Saunders é que essas ‘cidades de chegada’, longe de figurar como lugares estáticos e estacionários de pobreza e inércia, são ao contrário espaços dinâmicos de criatividade e empreendedorismo, onde os migrantes encontram vias de acesso não somente a seus direitos e necessidades fundamentais, como também à participação social e política. As redes de apoio e solidariedade, estabelecendo pontes entre os povoados de raiz e o destino desejado, criam a possibilidade de atravessá-las rumo ao horizonte da vida urbana.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM, 8 de novembro de 2021

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