O QUE NÃO É DEMOCRACIA

Democracia não é a total liberdade de fazer o que se deseja, o que se quer e o que vem à cabeça de cada um, e sim o dever e direito de fazer o que pode contribuir para o maior bem-estar da maior parte das pessoas; a prática democrática está subordinada à busca de satisfazer as necessidades básicas da população, em particular dos estratos de baixa renda e camadas menos favorecidas…

Democracia não é a livre difusão do ódio, da mentira, da prepotência e da arrogância pura e simples; a liberdade de expressão, seja ela pessoal, de imprensa ou das redes digitais, está sujeita aos critérios de veracidade, transparência e verificação, não podendo jamais se prestar à acusação gratuita e sem provas documentais, sendo tais provas sempre e devidamente rastreáveis pelos órgãos públicos da justiça…

Democracia não combina com o estado contínuo de agressão e hostilidade; nele prevalecem o ataque e a difamação, em lugar do empenho para averiguar corretamente os fatos e boatos; palavras proferidas à toa, às vezes com leveza e superficialidade, são como folhas secas espalhadas ao vento: depois de soltas, não há como recolhê-las nem ignorá-las; ser apontado inocentemente como criminoso causa estragos irremediáveis, sendo que todo o ônus da defesa cabe em geral ao acusado…

Democracia não tem o direito de confundir a esfera pública com a esfera privada, tentando colocar a nação inteira política e economicamente refém de crimes cometidos por determinados indivíduos, junto com suas famílias ou corporações; o bem público não pode ficar subordinado aos interesses particulares, familiares ou partidários; cada cidadão deve responder de forma própria e responsável por suas ações, mandos e desmandos…

Democracia nada tem a ver com chantagem política, religiosa ou ideológica, venha ela de onde vier, seja ela armada por quem for; não dá para comprometer os destinos do país à investigação que qualquer cidadão esteja sofrendo judicialmente; também neste caso, o indivíduo responde por seus atos, gestos e palavras e, quando julgado e culpado, por seus crimes…

Democracia deve tomar distância dos conflitos que separam e dividem nações e pessoas, das guerras e da violência em geral; antes de se aventurar na luta armada, devem-se esgotar todas as tentativas de encontro, de diálogo e de mútua solidariedade; a guerra só beneficia quem produz e quem comercializa armas e munição; a indústria bélica está subordinada a todos os passos e esforços pela construção da paz…

Democracia nasce, cresce e se fortalece no terreno do “desenvolvimento integral”, o que equivale a dizer que o verdadeiro alicerce da paz é a justiça, a equidade e a igualdade de oportunidades para todos e para cada um; assimetrias e desigualdade socioeconômica geram distúrbios de toda sorte, constituindo solo minado para a ordem mundial da humanidade…

Democracia não é retórica eleitoreira, moeda a ser trocada por votos, escada para subir os degraus do poder; é antes serviço em vista de superar o nível de vida da pobreza, da miséria e da fome; serviço não ao punhado de poderosos de uma nação, mas à maioria pobre, excluída, vulnerável e marginalizada; em outros termos, serviço não aos interesses próprios, mas à justiça e paz do país…

Democracia não condiz com a anarquia de raposas e galinhas no interior do mesmo espaço, nem com tubarões e sardinhas dentro do mesmo aquário; o liberalismo do mercado total e globalizado precisa de regras e regulação, caso contrário retrocede à férrea lei do mais forte, à seleção natural de Darwin aplicada desde um ponto de vista social, político e econômico; nem Estado total, nem ausência de Estado, mas a presença de critérios capazes de proporcionar oportunidades équas e possíveis para todos os cidadãos!

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, assessor do SPM – São Paulo, 09/08/2025

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