[Pe. Alfredinho] Monólogo e diálogo

Com a Campanha Ecumênica da Fraternidade de 2021 em curso, não será ocioso refletir sobre o binômio monólogo/diálogo. Enquanto o primeiro, feito caramujo, se fecha no interior do próprio casulo, o segundo mantém-se sempre aberto a novas descobertas. O grande problema que leva o indivíduo ao monólogo é justamente o receio de deparar-se com terreno desconhecido. O novo o assusta e o faz retrair-se. Navega às mil maravilhas em águas tranquilas e conhecidas, mas foge do confronto com algo que não lhe seja familiar. Vive ensimesmado, de certa forma, a exemplo de Narcíseo, apaixona-se pela própria imagem e beleza, por seus interesses, desejos e instintos. Torna-se incapaz de perceber que, por vezes, pode destilar veneno, e nutrir-se dele, espalhando-o ao seu redor. De forma implícita ou explícita, tende a envenenar a si mesmo e aos que com ele convivem. Qualquer novidade o aterroriza.

Semelhante atitude de isolamento frente aos que chegam do “lado de fora”, ou aos que falam “outro tipo” de linguagem costuma encontrar terreno fértil no ambiente urbano. Daí um duplo resultado: a formação do que alguns chamam precisamente de “tribos urbanas” ou a criação de barreiras que isolam diferentes grupos em “guetos”. Com efeito, e de modo particular nas grades metrópoles os caminhos para o processo de recriação da identidade perdida, para o bem ou para o mal, costumam ser distintos e mesmo contraditórios. No primeiro caso, chamá-las de tribos, a bem da verdade, chega a ser uma ofensa aos povos indígenas. Mas o conceito busca explicitar a atitude e comportamento de organizações hipercerradas com objetivos bem precisos e quase sempre obscuros. Em geral, os membros são recrutados entre os extratos mais pobres, excluídos e vulneráveis da sociedade, tais como os imigrantes, com destaque para os indocumentados; crianças, adolescentes e jovens oriundos de famílias de baixa renda; os subempregados que, em geral, sobrevivem de “bicos”; indivíduos ligados às forças de segurança policial, mas com passado pouco recomendável. O cimento identitário tende a construir-se no confronto sócio ideológico entre “os nossos” e “eles”, ou entre os “amigos” e os “inimigos”. Constituem uma espécie de bolhas sociais que, em conjunto, formam um arquipélago hermético e incomunicável, seja entre si seja com outros estratos.

Diversa é a constituição e a participação nos “guetos”. Neste caso, a identidade mergulha suas raízes mais profundas numa homogeneidade, ao mesmo tempo, étnica, territorialista, histórica, linguística e às vezes religiosa. De igual forma que a tribo, também o gueto desenvolve a tendência a fechar-se sobre si mesmo. Diferentemente daquela, porém, o isolamento com o restante da cidade, com frequência, é mais marcado, geográfico e territorial, como um bairro separado. Estabelecem-se fronteiras que delimitam espaços concretos entre os “de fora” e os “de dentro”. Enquanto a tribo se utiliza do tecido social urbano para seu próprio fortalecimento e seus negócios escusos, o gueto ganha maior coesão na exata medida em que nutre e faz crescer uma hostilidade e/ou agressividade, as quais, de resto, costumam ser recíprocas em relação ao em torno e ao conjunto da sociedade que o cerca. Migração e gueto têm em comum uma longa história de encontros e desencontros.

Contra a tribo e o gueto, surge a comunidade. Se os dois primeiros identificam-se, em geral, por um alto grau de isolamento e separação, a comunidade caracteriza-se pela abertura ao diferente. Rompe a fronteira física ou simbólica entre “nós” e “eles”, na tentativa de abrir-se ao encontro, ao diálogo, ao intercâmbio de experiências e a uma solidariedade recíproca. Costuma figurar como antídoto do individualismo e isolacionismo exacerbados, desenvolvendo espaços plurais ao “outro, estrangeiro e diferente”. Cresce e se enriquece através da troca mútua de valores e saberes diferenciados. Enquanto a tribo e o gueto permanecem debruçados de forma egoísta e egocêntrica sobre o próprio umbigo, levantando muros, a comunidade tem por objetivo sair de si mesma, procurando estabelecer pontes de unidade.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo, 3 de março de 2021.

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