Homilia de Dom Mario Antônio durante a Missa Encerramento XXII Assembleia dos 40 anos SPM

Local: Igreja São João Batista Scalabrini – Ipiranga – SP

Data: 02 de novembro de 2025

“Queridos irmãos e irmãs presentes nesta Igreja e os que nos acompanham pela transmissão. A Palavra do Senhor, como cantamos antes deste Evangelho, é luz para o caminho, ilumina os nossos passos. Que essa verdade bíblica nos motive a cada dia dar um passo a mais, continue iluminando os passos do Serviço Pastoral dos Migrantes. Já contamos 40 anos e vislumbramos ali na reflexão desta manhã a esperança, o esperançar, a profecia dos próximos 40, com memória do que já fizemos, com memória desse chão sagrado dos 40 anos, um chão de muitas vidas, um chão de muitas lágrimas e por que não de sangue, de sonhos, que são colocados neste momento de ação de graças. Uma ação de graças no que a Palavra de Deus nos coloca em sintonia com aquilo que é mais humano, como na história de Jó. Jó perdeu tudo, menos a fé no Deus criador. O texto que ouvimos hoje ele diz com convicção que ele tem fé no redentor. O texto sagado nos diz: o Redentor está vivo! E para Jó, antigo testamento, o Redentor, na cultura da época, é o Goel, o vingador, o resgatador, por isso ele não se acanha em não ter nada, mas em olhar não apenas com otimismo. Papa Leão diz que o otimismo muitas vezes frustra, mas com esperança, porque a esperança promete e cumpre, a esperança no Redentor. Meu Redentor está vivo, meu resgatador está vivo. Por isso a história de Jó, quase que das cinzas, das poeiras, se resgata e se levanta no horizonte não de uma promessa, mas de uma certeza na vida nova. SPM 40 anos! Quantas vezes exerceu a missão e continua exercendo a missão de um resgatador na vida de tantas pessoas sofridas, oprimidas, às vezes até perseguidas, como vocês bem conhecem. Agradecemos a Deus por esse resgate de tantas vidas e tantas pessoas e que essa perspectiva seja o Esperançar que está sendo refletido e conjugado nesta Assembleia do SPM!

 

Segunda leitura, São Paulo escreve à comunidade de Corinto falando da ressurreição! Paulo não se acanha em pregar o Cristo Crucificado e Ressuscitado. Ele não conheceu o Jesus histórico, mas fez a experiência no encontro com o Cristo da fé, e o encontro que transformou a vida dele a ponto de ele dizer não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim! Papa Francisco quando escreveu Christus Vivit, depois do Sínodo da Juventude, tem lá uma frase Cristo vive e quer-te vivo! Creio que não é outra a perspectiva do SPM e demais pastorais e serviços com os migrantes de querê-los vivos. De nada adianta vivermos nós, de nada adianta Cristo estar vivo se não promovemos a vida daqueles que às vezes estão até morrendo. Paulo, ao falar da ressurreição de Jesus, ele tem plena certeza de que a vida dele deve ser cristificada, nada para Paulo que não seja cristificado tem valor, até mesmo a lei. Ele fala muito mal da lei, mas da lei que afasta as pessoas de Cristo e do bem. Como fala bem da lei, da lei cristificada, da lei que é amor até às últimas consequências, da lei que restaura vidas no horizonte físico e espiritual. Sejamos mensageiros do Cristo vivo e ressuscitado e não temos dúvida: Ele está vivo em nosso meio e nos quer vivos, promovendo a vida, porque Ele veio para que todos tenham vida e vida em abundância! Por isso hoje, no dia em que recordamos os fiéis defuntos, nós não esquecemos a realidade da morte, a morte que foi vencida, como ouvimos no texto de Paulo. Mas isso não significa que não passaremos pela morte física biológica. A morte, pelo primeiro homem, Adão, feriu a natureza humana, não destruiu, feriu a natureza humana. Por isso o novo Adão, Jesus Cristo, aquele que nos garante, pela sua morte e ressurreição, igual passagem para todos nós, igual passagem para todos que já partiram.

O Evangelho, uma cena de amizade, de convivência, mas num momento de luto e de dor. Lázaro morreu e Jesus está lá com Marta e Maria. A Betânia da amizade, da acolhida, da fraternidade, é também a Betânia do luto, da dor, da perda, mas não do desespero. É a Betânia da fé na ressurreição. E no diálogo que ouvimos no Evangelho, Jesus não se acanha em dizer claramente: Eu sou a ressurreição e a vida! Quem crê em mim, mesmo que morra – quantas coisas Deus permite: sofrimentos, cruzes, sacrifícios, dores, mortes, enfermidades – mesmo que morra, viverá. A morte não tem a última palavra, quem tem fé em Jesus a morte é real, mas é uma passagem para a vida eterna. Uma vida eterna que somos convidados a viver, acreditar, não só quando o serviço funerário vai cuidar de nós, mas já hoje, em vida, porque a liturgia de ontem nos dizia: bem aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus, bem aventurados os perseguidos pela justiça, porque deles é o reino dos céus! Por isso, queridos irmãos e irmãs, para nós nessa celebração dos 40 anos do SPM, Betânia tem no mínimo 3 sentidos, 3 significados. Primeiro, de acolhida dos migrantes e refugiados, seja na migração interna, seja na migração de outros países para a nossa nação. São irmãos e irmãs, são amigos, e aí vale a pena o sacrifício, porque o sacrifício verdadeiro é tudo que nos une a Deus e aos irmãos e irmãs em comunhão, esse é o verdadeiro sacrifício – o que nos une a Deus, o que nos une aos irmãos e irmãs mesmo de outras nações, ou sobretudo de outras nações em comunhão. E o SPM tem dado provas concretas, nesses 40 anos, de acolhida, de Betânia, seja pelos Centros de Migração, pelos orfanatos, pelas outras casas, olha o orfanato aqui fundado pelo Pe. José Marchetti, na história da continuidade, quantos locais verdadeiramente Betânia para os migrantes e refugiados!

Um segundo sentido é Betânia com as famílias dos migrantes enlutadas. Não é fácil o luto para ninguém! Imaginemos para quem vem de outra nação. E vocês sabem dosar isso, que acompanham tantas circunstâncias. Quanto consolo para pessoas que perdem seus entes queridos lá na sua pátria, o choro de quem está aqui, quem é que vai consolar? O Serviço Pastoral dos Migrantes! Quanto consolo! Verdadeira Betânia na dor, no sofrimento das pessoas. Verdadeira Betânia na perspectiva da fé, que consola e anima para a continuidade.

Um terceiro sentido é a Betânia que tira muitas pessoas dos seus túmulos. Do túmulo não da morte física, mas do túmulo às vezes do preconceito, do individualismo, do túmulo às vezes da enfermidade, do desânimo, da descrença, do túmulo às vezes da falta de oportunidade. Por isso, ser Betânia à luz dos 4 verbos é acolher com ternura, proteger com coragem, promover com justiça e integrar com amor!

Os 40 anos selam esta Assembleia com essa verdade Betânia, de ternura, que é a capacidade de amar despertando alegria nas pessoas, de coragem, que não é valentia, mas é abrir caminhos, de justiça, que não é apenas direitos, mas é equidade, e de amor de amor até às últimas consequências.

Queridos irmãos e irmãs, a página viva do Evangelho, ela se realiza como se realizou na família de Lázaro, Maria e Marta, se realiza nas nossas famílias no momento de morte, mas também no momento de ressurreição, no momento de tristeza, mas também no momento de alegria! Que essa nossa ação de graças possa reforçar, restaurar, como refletimos há pouco lá com o Padre Alfredinho: ossos e carnes, músculos e nervos para uma missionariedade, uma sinodalidade para o caminhar juntos com os migrantes. E o caminho é Jesus Cristo. Jesus não é a beira das estradas, não é a margem, Ele é o caminho, Ele é o espaço que acolhe e permite percorrer na dignidade e na construção de um mundo mais justo e fraterno. O SPM abre os olhos da Igreja e da sociedade, para as necessidades mais emergentes dos migrantes e refugiados. Deus abençoe, Deus recompense cada um de vocês nessa dedicação, se não nos 40 anos, nos 30, nos 20, nos 10 que vocês já fazem parte deste trabalho, deste serviço! E que doravante continuem abrindo os olhos da Igreja e da sociedade para essa realidade que deve tocar o nosso coração, porque tocar o migrante é tocar o próprio Cristo, encarnado entre nós. E esse toque é força, é graça, é vida, não sem morte, mas é acima de tudo ressurreição.

Transcrição da Homilia: Aurinete Brasil

Fotos: Darcy Lima

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