Migração e saberes

Saber não é só o que se adquire com lápis, caneta e papel,

mas também o que nos traz a enxada ou pá, prumo ou vassoura

e a grande multidão de ferramentas do trabalho cotidiano;

Saber não é só o que nos ensina o professor na sala de aula,

mas também o que se forja nas tribulações e adversidades

da travessia pelo ar, pelo mar, pelos desertos e florestas;

Saber não é só o que chega através dos bancos da escola,

mas também o que se descobre com o vaivém errante

de quem deixa a terra natal em busca de novo solo pátrio;

Saber não é só o que diz a alquimia das letras, palavras e frases,

mas também o que se oculta no silêncio e no ouvido atento,

quando a escuta é simples e aberta, respeitosa e reverente;

Saber não é só o que se multiplica ao lidar com números e contas

mas também o que se oferece de forma gratuita e sem medida,

pois na matemática da vida quanto mais se dá, mais de obtém;

Saber não é só o que revelam as páginas de livros e bibliotecas,

mas também o que os pés imprimem nas veredas do caminho

e este imprime no coração, na mente e na alma do forasteiro;

Saber não é só o que se acumula com diploma sobre diploma,

mas ainda as diferentes paisagens que vão se descortinando,

a quem, passo a passo, curva a curva, cruza fronteira sobre fronteira;

Saber não é só o que organizam as pesquisas, tratados e universidades,

mas também o que produzem as mãos de quem atravessa caminhos

para semear e colher, erguer casas, prédios e cidades inteiras;

Saber não é só a reflexão individual de estudos, ideias e conceitos,

mas também o resultado do esforço e empenho conjuntos,

onde o mutirão e a solidariedade potencializam cada trabalho;

Saber não é só feito de verdades, dogmas, certezas já consolidadas,

mas também a coragem de abrir-se às próprias dúvidas e interrogações,

num processo permanente de aprendizado conjunto e recíproco.

Saber não é só o tesouro onde guardo as pérolas de minha vida e história,

mas também o diálogo mútuo com outras expressões, culturas e valores,

pois no coração de cada pessoa e de cada povo existem sementes da paz;

Saber não é só possuir água e alimento para dar aos sedentos e famintos,

mas também transparência e honestidade para desnudar a própria sede e fome,

uma vez que a verdade não está com o “nós” ou com o “eles”, e sim no diálogo.

Saber não é só o que se ganha pela tradição de familiares e antepassados,

mas também o que trazem os outros, estranhos e estrangeiros, 

pois as diferenças e a troca de saberes enriquecem toda humanidade.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM

São Paulo-SP, 20 de novembro de 2021

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *